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Testosterona pode causar infertilidade? Entenda como a reposição hormonal pode interromper a produção de espermatozoides

Você pode estar usando testosterona para melhorar sua disposição e, sem perceber, desligando a produção de espermatozoides.

Essa é uma das conversas mais difíceis que tenho no consultório.

O paciente chega satisfeito porque voltou a treinar, recuperou a libido, sente mais energia e acredita que está cuidando da saúde.

Então eu peço um espermograma.

Dias depois, o resultado mostra uma redução importante da quantidade de espermatozoides ou, em alguns casos, ausência completa deles.

A reação costuma ser sempre a mesma:

“Mas doutor… eu achei que testosterona fazia bem para o homem.”

A resposta é simples.

A testosterona é fundamental para a saúde masculina.

O problema não é a testosterona.

O problema é utilizar testosterona vinda de fora do organismo quando o homem ainda deseja ter filhos.

Muitos pacientes desconhecem que a reposição hormonal, quando utilizada sem indicação adequada ou durante o período reprodutivo, pode bloquear completamente a produção de espermatozoides.

Infelizmente, esse efeito ainda é pouco conhecido fora dos consultórios especializados em andrologia.

Na minha prática como <a href=”https://gustavoinaciourologista.com.br”>Dr. Gustavo Inácio, urologista</a>, essa é uma das causas mais frequentes de infertilidade masculina potencialmente reversível.

A boa notícia é que, quando identificada precocemente, muitas vezes existe tratamento.


Como a testosterona interfere na fertilidade?

Para entender esse mecanismo, imagine que seu cérebro funciona como o gerente de uma fábrica.

Todos os dias, ele envia ordens aos testículos para produzirem testosterona e espermatozoides.

Essas ordens são transmitidas por dois hormônios produzidos pela hipófise:

  • FSH;
  • LH.

O LH estimula as células de Leydig a produzirem testosterona dentro do testículo.

Já o FSH atua principalmente nas células de Sertoli, essenciais para a formação dos espermatozoides.

Quando o organismo recebe testosterona em forma de injeções, géis, implantes ou outras apresentações, o cérebro interpreta que já existe hormônio suficiente circulando.

Como consequência, reduz a produção de FSH e LH.

Sem esses estímulos, os testículos diminuem progressivamente sua atividade.

O resultado pode ser redução importante da produção de espermatozoides.

Em alguns homens, essa produção praticamente desaparece.


Por que isso acontece?

Existe um conceito chamado feedback negativo.

Sempre que os níveis de testosterona no sangue ficam elevados devido ao uso de testosterona exógena, o hipotálamo e a hipófise diminuem a liberação de GnRH, FSH e LH.

Sem esses hormônios, os testículos deixam de receber o estímulo necessário para manter a espermatogênese.

É importante compreender um detalhe.

Embora a testosterona no sangue fique alta, a testosterona dentro do testículo cai drasticamente.

E é justamente essa testosterona intratesticular que permite a produção normal dos espermatozoides.

Por isso, um homem pode apresentar excelentes níveis de testosterona no exame de sangue e, ao mesmo tempo, produzir poucos ou nenhum espermatozoide.


Toda testosterona causa infertilidade?

Essa é uma pergunta muito comum.

A resposta é que toda testosterona exógena tem potencial para reduzir ou interromper a produção de espermatozoides.

O grau dessa redução depende de diversos fatores, como:

  • dose utilizada;
  • tempo de uso;
  • idade do paciente;
  • função testicular prévia;
  • resposta individual.

Alguns homens apresentam apenas redução da concentração espermática.

Outros desenvolvem quadros de oligoastenoespermia, com diminuição da quantidade e da motilidade dos espermatozoides.

➡️ Se você deseja entender melhor esse diagnóstico, leia também nosso artigo sobre Oligoastenoespermia: o que é, causas, diagnóstico e tratamento.

Em situações mais intensas, pode ocorrer azoospermia, caracterizada pela ausência de espermatozoides no ejaculado.

➡️ Saiba mais em nosso artigo Azoospermia: o que é, quais são as causas e quando é possível recuperar espermatozoides.


Anabolizantes também causam infertilidade?

Sim.

Na prática, o mecanismo é exatamente o mesmo.

Os esteroides anabolizantes são derivados da testosterona ou apresentam ação semelhante.

Independentemente do objetivo — ganho de massa muscular, melhora estética ou desempenho esportivo — eles também bloqueiam o eixo hormonal responsável pela produção dos espermatozoides.

Quanto maiores as doses e mais prolongado o uso, maior tende a ser o impacto sobre a fertilidade.

Além disso, muitos usuários utilizam várias substâncias simultaneamente, potencializando ainda mais esse efeito.


Como descobrir se a testosterona está afetando minha fertilidade?

O principal exame continua sendo o espermograma.

É ele que permite avaliar a concentração, a motilidade e a morfologia dos espermatozoides.

➡️ Se você ainda não sabe interpretar esse exame, leia nosso artigo completo sobre Espermograma: como interpretar o exame e entender os resultados.

Além do espermograma, a investigação costuma incluir exames hormonais, especialmente FSH, LH e testosterona.

Esses resultados ajudam o urologista a compreender como está funcionando o eixo hormonal e a definir a melhor estratégia para cada paciente.

A fertilidade volta depois que o homem para de usar testosterona?

Na maioria dos homens, a produção de espermatozoides pode voltar após a interrupção da testosterona.

Mas existe um ponto muito importante que precisa ser esclarecido:

isso nem sempre acontece rapidamente.

Muitos pacientes acreditam que basta suspender a medicação e que, algumas semanas depois, tudo voltará ao normal.

Na prática, não é assim.

As diretrizes da American Urological Association (AUA) alertam que, embora a maioria dos homens recupere espermatozoides no ejaculado após interromper a testosterona, esse processo pode levar meses e, em alguns casos, até anos. Além disso, alguns homens não recuperam completamente a espermatogênese, permanecendo com infertilidade ou fertilidade reduzida.

Essa recuperação depende de diversos fatores, entre eles:

  • idade;
  • tempo de uso da testosterona;
  • dose utilizada;
  • função testicular antes do início da reposição;
  • uso concomitante de esteroides anabolizantes.

Por isso, quanto mais cedo o problema é identificado, maiores costumam ser as possibilidades de recuperação.


Existe tratamento para recuperar a produção de espermatozoides?

Sim.

Mas o tratamento deve ser individualizado.

A primeira medida costuma ser interromper a testosterona exógena quando o homem deseja preservar ou recuperar sua fertilidade.

A partir daí, o urologista avalia se existe necessidade de medicamentos capazes de estimular novamente o eixo hormonal responsável pela produção de espermatozoides.

As diretrizes da AUA/ASRM e da EAU reconhecem que, em homens inférteis com testosterona baixa, podem ser utilizados medicamentos que estimulam a produção endógena de testosterona — como hCG, moduladores seletivos do receptor de estrogênio (SERMs) e, em situações específicas, inibidores da aromatase — sempre após avaliação individualizada. O objetivo é aumentar a testosterona sem bloquear a espermatogênese, diferentemente da testosterona exógena.

É importante compreender que não existe um protocolo único.

Cada paciente apresenta uma história diferente, e o tratamento deve ser direcionado conforme a causa da infertilidade, os exames hormonais e os planos reprodutivos do casal.


Quem faz reposição hormonal nunca poderá ter filhos?

Não.

Essa é uma conclusão precipitada.

O uso de testosterona não significa que a fertilidade foi perdida para sempre.

O que ele significa é que existe um risco importante de redução ou interrupção da produção de espermatozoides enquanto o tratamento está em andamento.

Por isso, as diretrizes internacionais são muito claras:

Homens que desejam engravidar no presente ou em um futuro próximo não devem utilizar testosterona exógena como tratamento de rotina.

Se você pretende ser pai, essa conversa deve acontecer antes do início da reposição hormonal.

Essa é uma orientação simples que pode evitar meses — ou até anos — de investigação e tratamento.


A testosterona é contraindicada para todos os homens?

Não.

Essa também é uma ideia equivocada.

A testosterona possui indicações bem estabelecidas para homens com hipogonadismo confirmado, associado a sintomas e exames compatíveis.

Ela pode melhorar qualidade de vida, disposição, libido, massa muscular e saúde óssea quando corretamente indicada.

O ponto fundamental é outro:

o desejo reprodutivo precisa fazer parte da decisão terapêutica.

Um homem de 65 anos, que não deseja mais ter filhos, encontra-se em uma situação completamente diferente de um homem de 32 anos que está planejando formar uma família.

É justamente por isso que a avaliação individualizada é tão importante.


Conclusão

A testosterona é um hormônio essencial para a saúde masculina.

Entretanto, quando utilizada de forma exógena durante o período reprodutivo, ela pode reduzir significativamente a produção de espermatozoides e, em alguns homens, provocar oligozoospermia ou até azoospermia.

A boa notícia é que, em muitos casos, essa situação pode ser tratada.

Mas isso depende de um diagnóstico correto, da interrupção adequada da testosterona quando indicada e de um acompanhamento por um urologista com experiência em infertilidade masculina.

Ao longo da minha experiência atendendo homens que desejam construir uma família, aprendi que uma das perguntas mais importantes não é apenas “qual é o seu nível de testosterona?”

A pergunta correta é:

“Você pretende ter filhos?”

A resposta muda completamente a forma como conduzimos o tratamento.


Perguntas frequentes (FAQ)

A testosterona realmente pode causar infertilidade?

Sim. A testosterona exógena reduz a produção de FSH e LH pela hipófise, diminuindo a testosterona intratesticular e podendo reduzir ou interromper a produção de espermatozoides.

Todo homem que usa testosterona fica infértil?

Não necessariamente. O grau de comprometimento varia entre os indivíduos, mas todo homem deve ser informado sobre esse risco antes de iniciar o tratamento.

Depois de parar a testosterona, a fertilidade volta?

Na maioria dos casos, sim. Entretanto, a recuperação pode levar meses e, ocasionalmente, anos. Alguns homens podem não recuperar completamente a produção de espermatozoides.

Os anabolizantes têm o mesmo efeito?

Sim. Os esteroides anabolizantes também promovem supressão do eixo hormonal e podem causar oligozoospermia ou azoospermia.

Quem deseja ter filhos pode fazer reposição hormonal?

Essa decisão deve ser cuidadosamente discutida com o urologista. As diretrizes da AUA e da EAU orientam que testosterona exógena não deve ser prescrita para homens com interesse em fertilidade atual ou futura próxima.


Por que você pode confiar neste artigo?

Este conteúdo foi elaborado pelo <a href=”https://gustavoinaciourologista.com.br”>Dr. Gustavo Inácio, urologista</a>, com atuação em andrologia e infertilidade masculina, utilizando como base as recomendações mais recentes da American Urological Association (AUA), da American Society for Reproductive Medicine (ASRM) e da European Association of Urology (EAU). O objetivo é traduzir a melhor evidência científica para uma linguagem clara, permitindo que homens compreendam os riscos da testosterona exógena sobre a fertilidade e tomem decisões informadas junto ao seu médico.


Referências bibliográficas

  • American Urological Association & American Society for Reproductive Medicine. Diagnosis and Treatment of Infertility in Men Guideline. Atualização 2024.
  • European Association of Urology. EAU Guidelines on Sexual and Reproductive Health – Male Infertility.
  • American Urological Association. Evaluation and Management of Testosterone Deficiency Guideline.

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