Imagine a seguinte situação: depois de meses tentando engravidar, você decide procurar um médico. O primeiro exame solicitado é o espermograma. Dias depois, o resultado chega. Você abre o laudo e encontra palavras como:
- motilidade progressiva;
- morfologia;
- concentração;
- vitalidade;
- leucócitos.
Em poucos segundos, surge a ansiedade. “Meu exame veio alterado. Será que sou infértil?” Essa é uma das perguntas que mais escuto no consultório. E a resposta costuma surpreender muitos pacientes:nem todo espermograma alterado significa infertilidade. Da mesma forma, um espermograma normal não garante que o homem seja fértil.
O espermograma é o principal exame para avaliar a fertilidade masculina, mas ele representa apenas uma parte da investigação. Interpretar corretamente cada informação é fundamental para evitar preocupações desnecessárias ou, ao contrário, deixar de investigar alterações importantes. Neste artigo, vou explicar de forma simples como funciona o espermograma, quais são os valores considerados normais segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o que significam as principais alterações e quando é necessário procurar um urologista.
O que é o espermograma?
O espermograma é um exame laboratorial que avalia as características do sêmen e dos espermatozoides. Seu objetivo é analisar como está a capacidade reprodutiva masculina, investigando fatores que podem dificultar a gravidez. É considerado o exame inicial mais importante na investigação da infertilidade masculina e costuma ser solicitado quando um casal não consegue engravidar após um período de tentativas. Entretanto, ele também pode ser indicado em outras situações, como:
- avaliação após vasectomia;
- acompanhamento após cirurgia de varicocele;
- investigação de alterações hormonais;
- avaliação antes de tratamentos oncológicos;
- acompanhamento de homens que utilizaram testosterona ou esteroides anabolizantes.
Apesar de ser um exame relativamente simples, sua interpretação exige conhecimento técnico e sempre deve ser feita em conjunto com a história clínica, o exame físico e, quando necessário, outros exames complementares.
Como é feita a coleta?
Essa é uma das maiores dúvidas dos pacientes. Na maioria dos laboratórios, a coleta é realizada por masturbação, em um recipiente estéril fornecido pelo próprio laboratório. Alguns laboratórios, permitem coleta em casa através de uma relação sexual e usando um preservativo. Embora algumas pessoas sintam constrangimento, é importante lembrar que a qualidade da amostra influencia diretamente o resultado do exame. Por isso, algumas orientações devem ser seguidas.
Quanto tempo de abstinência sexual é necessário?
Segundo o Manual da Organização Mundial da Saúde (6ª edição), o ideal é manter um período de abstinência sexual entre 2 e 7 dias antes da coleta. Um período muito curto pode reduzir o volume ejaculado e a concentração de espermatozoides. Já uma abstinência prolongada pode diminuir a motilidade e aumentar a quantidade de espermatozoides envelhecidos. Por isso, seguir corretamente essa orientação é fundamental para que o exame reflita sua condição real.
O que o espermograma avalia?
Ao contrário do que muitos imaginam, o espermograma não mede apenas a quantidade de espermatozoides. Ele analisa diversos parâmetros que ajudam a entender como está a produção e a qualidade do sêmen.Entre eles, estão:
- volume ejaculado;
- concentração de espermatozoides;
- número total de espermatozoides;
- motilidade;
- morfologia;
- vitalidade;
- pH;
- presença de células inflamatórias;
- aglutinação;
- aspecto do sêmen.
Cada um desses parâmetros fornece uma informação diferente. Por isso, um único número isolado raramente é suficiente para definir um diagnóstico.
Volume do sêmen
O primeiro dado observado costuma ser o volume ejaculado. Segundo a Organização Mundial da Saúde, considera-se adequado um volume igual ou superior a 1,4 mL. Um volume reduzido pode estar relacionado a:
- obstruções dos ductos ejaculatórios;
- ejaculação retrógrada;
- alterações das vesículas seminais;
- deficiência androgênica;
- coleta incompleta.
Entretanto, um volume baixo, isoladamente, não significa infertilidade. O mais importante é avaliar o conjunto dos resultados.
Concentração de espermatozoides
A concentração indica quantos espermatozoides existem em cada mililitro de sêmen. Segundo a OMS, o valor de referência é de pelo menos 16 milhões de espermatozoides por mililitro. Quando esse número está reduzido, chamamos essa alteração de oligozoospermia. Se essa redução vier acompanhada de baixa motilidade, o quadro recebe o nome de oligoastenoespermia, uma das alterações mais frequentes em homens com dificuldade para engravidar.
➡️ Quer entender melhor esse diagnóstico? Leia também nosso artigo sobre Oligoastenoespermia: o que é, causas, diagnóstico e tratamento.
Entre as possíveis causas da redução da concentração estão:
- varicocele;
- uso de testosterona;
- esteroides anabolizantes;
- obesidade;
- tabagismo;
- infecções;
- alterações hormonais;
- fatores genéticos.
Número total de espermatozoides
Além da concentração, o laboratório informa o número total de espermatozoides presentes em toda a ejaculação. Esse parâmetro depende tanto da concentração quanto do volume do sêmen. Segundo a OMS, o valor de referência é superior a 39 milhões de espermatozoides por ejaculado. Em alguns casos, um homem pode apresentar concentração normal, mas volume reduzido, diminuindo o número total de espermatozoides disponíveis para fecundação.
Motilidade dos espermatozoides
Não basta existir um número adequado de espermatozoides. Eles precisam conseguir nadar até encontrar o óvulo. É exatamente isso que a motilidade avalia. Os laboratórios costumam dividir os espermatozoides em:
- motilidade progressiva;
- motilidade não progressiva;
- imóveis.
Segundo a OMS, espera-se que pelo menos 30% dos espermatozoides apresentem motilidade progressiva. Quando essa capacidade de movimentação está reduzida, chamamos essa alteração de astenozoospermia. Uma das principais causas desse problema é a varicocele.
➡️ Se você recebeu esse diagnóstico, vale a pena entender como essa doença pode comprometer a fertilidade. Leia também nosso artigo completo sobre varicocele.
Morfologia dos espermatozoides
A morfologia avalia o formato dos espermatozoides. Em outras palavras, o laboratório analisa se eles possuem cabeça, peça intermediária e cauda com características adequadas para fecundar o óvulo. Hoje, a maioria dos laboratórios utiliza os critérios estritos de Kruger, considerados o padrão internacional.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o valor de referência é de 4% ou mais de formas normais. Esse número costuma assustar muitos pacientes. É comum ouvir no consultório:
“Meu exame veio com apenas 4%. Então 96% dos meus espermatozoides são defeituosos?”
Na verdade, não. A avaliação da morfologia é extremamente rigorosa. Pequenas variações no formato já fazem com que um espermatozoide seja classificado como “anormal”. Por isso, mesmo homens férteis podem apresentar valores próximos ao limite de referência. Além disso, a morfologia nunca deve ser interpretada isoladamente. Um paciente pode apresentar morfologia reduzida e ainda assim conseguir uma gestação natural, especialmente quando a concentração e a motilidade estão preservadas.
Vitalidade
Nem todo espermatozoide imóvel está morto. Alguns permanecem vivos, mas não conseguem se movimentar adequadamente. É justamente isso que a vitalidade avalia. Segundo a OMS, espera-se que pelo menos 54% dos espermatozoides estejam vivos. Quando há muitos espermatozoides imóveis, esse parâmetro ajuda o médico a diferenciar se eles estão vivos, porém sem movimento, ou se realmente perderam a viabilidade. Essa informação pode influenciar a investigação e, em alguns casos, a escolha do tratamento.
pH do sêmen
O pH indica o grau de acidez ou alcalinidade do sêmen. Normalmente, ele é levemente alcalino, favorecendo a sobrevivência dos espermatozoides no trato reprodutivo feminino. Alterações importantes do pH podem sugerir processos infecciosos, inflamatórios ou até obstruções do trato genital masculino. Entretanto, esse parâmetro raramente é analisado de forma isolada.
Leucócitos
A presença de uma pequena quantidade de leucócitos no sêmen pode ser normal. Porém, quando existe aumento importante dessas células de defesa, pode haver suspeita de inflamação ou infecção do trato genital masculino. Nessas situações, o urologista pode solicitar exames complementares antes de indicar qualquer tratamento. Vale lembrar que nem todo aumento de leucócitos significa infecção bacteriana.
Azoospermia: quando não existem espermatozoides
Uma das alterações que mais preocupa os pacientes é a azoospermia, caracterizada pela ausência de espermatozoides no ejaculado. Receber esse resultado costuma gerar muita ansiedade, mas é importante entender que azoospermia não é um diagnóstico final. Ela representa um achado do espermograma que precisa ser investigado.
As causas podem ser bastante diferentes entre si, incluindo obstruções dos canais por onde passam os espermatozoides, alterações hormonais, fatores genéticos ou falência da produção testicular. Dependendo da situação, podem ser necessários exames hormonais, testes genéticos, exames de imagem e, em alguns casos, procedimentos específicos para identificar ou recuperar espermatozoides.
Por isso, todo homem com azoospermia deve ser avaliado por um urologista com experiência em infertilidade masculina para que a causa seja identificada e o tratamento mais adequado seja definido.
Um espermograma normal garante fertilidade?
Não. Essa é uma das maiores limitações do exame. O espermograma avalia características importantes dos espermatozoides, mas não consegue analisar todos os aspectos relacionados à fertilidade masculina. É possível que um homem apresente um espermograma dentro dos valores de referência e, ainda assim, tenha dificuldade para engravidar.
Isso acontece porque existem fatores que o exame não consegue identificar, como alterações genéticas dos espermatozoides, defeitos funcionais ou aumento da fragmentação do DNA espermático. Por isso, quando existe infertilidade persistente, o espermograma deve ser interpretado dentro de um contexto mais amplo.
O espermograma tem limitações?
Sim. Embora seja o principal exame da investigação da fertilidade masculina, ele não avalia toda a capacidade reprodutiva do homem. O exame informa a quantidade, a motilidade e a morfologia dos espermatozoides, mas não consegue medir diretamente a qualidade do material genético transportado por essas células.
O espermograma avalia quantidade, motilidade e morfologia dos espermatozoides, mas não consegue medir diretamente a integridade do DNA dessas células. Para entender quando essa avaliação complementar é necessária, leia nosso artigo “Fragmentação do DNA espermático: o que é, quando investigar e como ela pode afetar as suas chances de engravidar”.
Um espermograma alterado significa infertilidade?
Também não. Muitas alterações são transitórias. Uma gripe recente, febre alta, infecções, estresse intenso, privação de sono e até alguns medicamentos podem alterar temporariamente o exame.
Além disso, a produção de espermatozoides varia naturalmente ao longo do tempo. Por esse motivo, um único espermograma alterado raramente é suficiente para definir um diagnóstico definitivo. O mais importante é interpretar o resultado em conjunto com a história clínica, o exame físico e, quando necessário, outros exames complementares.
Quando é necessário repetir o exame?
Quando o primeiro espermograma apresenta alterações importantes, geralmente recomenda-se repetir o exame após um intervalo de dois a três meses. Esse período corresponde ao tempo necessário para a formação de uma nova população de espermatozoides.
Além disso, se o paciente interrompeu o uso de testosterona ou anabolizantes, tratou uma varicocele, perdeu peso ou abandonou o tabagismo, esse intervalo permite avaliar se essas mudanças melhoraram a qualidade do sêmen.
Quais doenças podem alterar o espermograma?
Diversas condições podem comprometer a qualidade do sêmen. Entre as principais estão:
- varicocele;
- uso de testosterona e esteroides anabolizantes;
- obesidade;
- tabagismo;
- consumo excessivo de álcool;
- alterações hormonais;
- infecções;
- doenças genéticas;
- quimioterapia e radioterapia;
- exposição frequente ao calor excessivo.
Por isso, identificar a causa da alteração é tão importante quanto interpretar o resultado do exame.
Conclusão
O espermograma é o principal exame utilizado para avaliar a fertilidade masculina, mas ele não deve ser interpretado isoladamente. Um resultado alterado não significa, automaticamente, infertilidade. Da mesma forma, um exame dentro dos valores de referência não garante que todas as funções dos espermatozoides estejam preservadas.
A interpretação correta depende da história clínica, do exame físico e, quando necessário, de exames complementares. Se você recebeu um espermograma alterado, o mais importante não é apenas saber que houve uma alteração, mas entender por que ela aconteceu.
Em muitos casos, a causa pode ser identificada e tratada, aumentando as chances de uma gestação natural.
Perguntas frequentes (FAQ)
Qual é o valor normal do espermograma?
Não existe um único valor. O exame avalia diversos parâmetros, como volume, concentração, motilidade, morfologia e vitalidade. Todos devem ser interpretados em conjunto.
Um espermograma alterado significa que sou infértil?
Não. Muitas alterações são transitórias ou leves e podem não impedir uma gravidez natural.
Quanto tempo de abstinência sexual é recomendado?
Entre 2 e 7 dias, conforme recomenda a Organização Mundial da Saúde.
Posso repetir o exame se ele vier alterado?
Sim. Frequentemente recomenda-se repetir o espermograma após cerca de dois a três meses para confirmar os achados e avaliar se houve melhora.
Qual médico interpreta o espermograma?
O exame deve ser interpretado por um urologista com atuação em andrologia, que poderá correlacionar os resultados com a história clínica, o exame físico e outros exames quando necessário.
Por que confiar neste artigo?
Este conteúdo foi elaborado pelo Dr. Gustavo Inácio, urologista com atuação em andrologia e infertilidade masculina, com base na 6ª edição do Manual da Organização Mundial da Saúde (OMS) para análise do sêmen, além das recomendações da European Association of Urology (EAU) e da American Urological Association (AUA). O objetivo é oferecer informações confiáveis, atualizadas e de fácil compreensão para ajudar homens e casais a compreenderem melhor os resultados do espermograma e os próximos passos da investigação da fertilidade.
Referências
- Organização Mundial da Saúde. WHO Laboratory Manual for the Examination and Processing of Human Semen. 6ª edição.
- European Association of Urology. EAU Guidelines on Sexual and Reproductive Health. Versão mais recente.
- American Urological Association (AUA) & American Society for Reproductive Medicine (ASRM). Diagnosis and Treatment of Infertility in Men Guideline. Versão mais recente.
- European Society of Human Reproduction and Embryology (ESHRE). Guideline on Male Infertility
