Imagine descobrir que existe uma alteração nos seus testículos capaz de comprometer a produção de espermatozoides e que, na maioria das vezes, ela não provoca nenhum sintoma. É exatamente isso que acontece com a varicocele.
Muitos homens convivem durante anos com essa condição sem perceber absolutamente nada. Não sentem dor, não apresentam alterações na vida sexual e continuam levando uma vida normal. O problema costuma aparecer apenas quando o casal decide ter filhos e a gravidez demora mais do que o esperado. É nesse momento que o espermograma vem alterado e a pergunta surge quase imediatamente:
“Será que a varicocele é a causa?”
Na prática clínica, essa é uma das dúvidas mais frequentes que recebo.
Como Dr. Gustavo Inácio, urologista com atuação em infertilidade masculina, acompanho homens que chegam ao consultório acreditando que a cirurgia é sempre necessária e outros que pensam exatamente o contrário: que a varicocele nunca interfere na fertilidade.
Nenhuma dessas afirmações está completamente correta.
A boa notícia é que, quando bem avaliada, a varicocele é a principal causa tratável de infertilidade masculina. Isso significa que muitos pacientes podem apresentar melhora da qualidade do sêmen após o tratamento, desde que a indicação seja feita de forma adequada.
Neste artigo, você entenderá o que é a varicocele, quando ela realmente merece tratamento e o que dizem as principais diretrizes internacionais sobre o assunto.
O que é varicocele?
A varicocele é a dilatação das veias do plexo pampiniforme, uma rede de vasos responsável por drenar o sangue dos testículos.
Uma comparação simples ajuda a entender. Assim como algumas pessoas desenvolvem varizes nas pernas, alguns homens desenvolvem “varizes” nas veias que ficam ao redor dos testículos. Quando essas veias deixam de funcionar adequadamente, o sangue passa a permanecer por mais tempo na região escrotal. Esse acúmulo altera o ambiente necessário para que os testículos produzam espermatozoides de forma eficiente.
Embora possa ocorrer dos dois lados, a varicocele aparece com muito mais frequência no testículo esquerdo devido às características anatômicas da drenagem venosa. Isso explica por que a maioria dos pacientes apresenta alterações predominantemente no lado esquerdo da bolsa escrotal.
A varicocele é comum?
Sim. Ela é uma das alterações urológicas mais frequentes em homens jovens. Estima-se que aproximadamente 15% dos homens adultos apresentem algum grau de varicocele. No entanto, quando avaliamos apenas homens com dificuldade para ter filhos, essa frequência aumenta significativamente.
Segundo as diretrizes da European Association of Urology (EAU) e da American Urological Association (AUA):
- cerca de 35 a 40% dos homens com infertilidade primária apresentam varicocele clínica;
- entre aqueles que já tiveram filhos anteriormente e desenvolveram infertilidade posteriormente (infertilidade secundária), a prevalência pode chegar a 45–80%, dependendo da população estudada.
Esses números mostram que a presença da varicocele é muito mais frequente entre homens com alteração da fertilidade do que na população geral. Ainda assim, um ponto precisa ficar claro. Ter varicocele não significa, obrigatoriamente, ser infértil. Muitos homens apresentam varicocele e têm filhos naturalmente. Da mesma forma, muitos homens inférteis não possuem varicocele. É justamente por isso que a avaliação individualizada é tão importante.
Como a varicocele pode prejudicar a fertilidade?
Essa talvez seja a pergunta mais interessante de todo o artigo.
Durante muito tempo, acreditava-se que a varicocele causava infertilidade apenas porque aumentava a temperatura dos testículos. Hoje, sabemos que o problema é muito mais complexo. Os testículos funcionam melhor em uma temperatura aproximadamente 2 a 4 °C abaixo da temperatura corporal. Esse ambiente mais frio é essencial para a produção adequada dos espermatozoides. Quando ocorre a dilatação das veias, o sangue permanece por mais tempo na bolsa escrotal, dificultando esse sistema natural de resfriamento. Mas esse é apenas um dos mecanismos.
Pesquisas mostram que a varicocele também está associada ao aumento do estresse oxidativo, um desequilíbrio entre a produção de radicais livres e a capacidade do organismo de neutralizá-los. O excesso de radicais livres pode danificar a membrana dos espermatozoides, reduzir sua motilidade e aumentar a fragmentação do DNA espermático.
Além disso, estudos sugerem que a varicocele pode provocar redução da oxigenação dos tecidos testiculares, refluxo de metabólitos provenientes das veias renais e adrenais e alterações na produção das células responsáveis pela testosterona. O resultado pode ser uma combinação de alterações importantes:
- redução da quantidade de espermatozoides;
- diminuição da motilidade;
- piora da morfologia;
- aumento da fragmentação do DNA espermático;
- em alguns homens, redução da produção de testosterona.
Nem todos os pacientes apresentam todas essas alterações, mas compreender esses mecanismos ajuda a explicar por que a varicocele pode interferir tanto na fertilidade masculina.
Quando a varicocele reduz ao mesmo tempo a quantidade e a capacidade de movimentação dos espermatozoides, pode surgir um quadro chamado oligoastenoespermia. Se você deseja entender melhor essa alteração do espermograma, leia também nosso artigo Oligoastenoespermia: o que é, causas, diagnóstico e tratamento.
Quais são os sintomas da varicocele?
Curiosamente, a maioria dos homens não sente absolutamente nada. Por isso, muitos casos são descobertos durante a investigação da infertilidade ou em exames de rotina. Quando existem sintomas, eles costumam incluir:
- sensação de peso na bolsa escrotal;
- desconforto que piora ao permanecer muito tempo em pé;
- dor leve ou moderada após atividade física;
- melhora dos sintomas ao deitar;
- percepção de veias dilatadas acima do testículo, frequentemente descritas como uma sensação semelhante a um “saco de minhocas”.
Em casos mais avançados, pode ocorrer redução do volume do testículo afetado, situação conhecida como atrofia testicular. Vale lembrar que dor intensa e de início súbito não é característica da varicocele e deve ser avaliada imediatamente por um urologista, pois pode indicar outras condições que exigem atendimento urgente, como torção testicular ou infecção.
Toda varicocele precisa ser operada?
A resposta é não. Esse é um dos maiores mitos sobre a doença. Encontrar uma varicocele no exame físico ou na ultrassonografia não significa que a cirurgia seja automaticamente necessária.
As diretrizes da AUA e da EAU recomendam que a indicação seja baseada na combinação de fatores como:
- presença de varicocele clínica (palpável ao exame físico);
- alteração do espermograma;
- desejo reprodutivo do casal;
- avaliação da fertilidade da parceira;
- exclusão de outras causas de infertilidade.
Em adolescentes, a cirurgia também pode ser considerada quando existe redução persistente do volume testicular do lado afetado. Ou seja, a decisão não depende apenas da presença da varicocele, mas do contexto clínico de cada paciente.
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Como é feito o diagnóstico da varicocele?
O diagnóstico da varicocele começa pela consulta com o urologista. Embora a ultrassonografia seja um exame bastante conhecido, as diretrizes da American Urological Association (AUA) e da European Association of Urology (EAU) são claras: o diagnóstico da varicocele é, principalmente, clínico. Isso significa que a etapa mais importante continua sendo uma boa conversa com o paciente, seguida de um exame físico cuidadoso.
Durante a consulta, investigo sintomas como dor, sensação de peso na bolsa escrotal, histórico de infertilidade, uso prévio de testosterona ou esteroides anabolizantes, além de doenças que possam interferir na fertilidade masculina. Em seguida, realizo o exame físico com o paciente em pé e, quando necessário, peço que ele faça a manobra de Valsalva (como se estivesse fazendo força para evacuar). Essa manobra aumenta a pressão abdominal e facilita a identificação das veias dilatadas.
Nos casos em que a varicocele não é palpável ou existe dúvida diagnóstica, a ultrassonografia com Doppler pode ser utilizada como exame complementar. Entretanto, um ponto merece destaque. Encontrar uma varicocele apenas na ultrassonografia não significa que ela deva ser operada.
As chamadas varicoceles subclínicas, identificadas somente por exames de imagem, normalmente não têm indicação cirúrgica, pois os estudos disponíveis não demonstraram benefício consistente em termos de melhora da fertilidade.
Como a varicocele é classificada?
A classificação clínica é simples e ajuda a orientar a avaliação.
Grau I: percebida apenas durante a manobra de Valsalva.
Grau II: palpável mesmo sem realizar esforço.
Grau III: facilmente visível e palpável, mesmo antes do exame físico.
Embora os graus mais elevados possam estar associados a alterações mais importantes do espermograma, a decisão pelo tratamento não depende apenas dessa classificação. Homens com varicocele grau III podem apresentar fertilidade normal, enquanto outros com grau II podem ter alterações significativas do sêmen. Mais uma vez, o tratamento precisa ser individualizado.
Quando a cirurgia é indicada?
Essa é uma das perguntas mais frequentes no consultório. De acordo com as diretrizes da AUA e da EAU, a cirurgia costuma ser indicada quando estão presentes, em conjunto:
- varicocele clínica (palpável ao exame físico);
- infertilidade do casal;
- alteração do espermograma;
- desejo reprodutivo;
- parceira com potencial reprodutivo ou fator feminino tratável.
Em adolescentes, a cirurgia pode ser considerada quando existe redução persistente do volume do testículo afetado ou dor importante que não melhora com tratamento conservador. Por outro lado, não existe indicação rotineira de cirurgia para homens com espermograma normal e sem sintomas apenas porque a ultrassonografia identificou uma pequena varicocele. Esse é um erro relativamente comum e que pode levar a procedimentos desnecessários.
A cirurgia realmente melhora a fertilidade?
Na maioria dos pacientes corretamente selecionados, sim. Diversas revisões sistemáticas e metanálises demonstram que a correção cirúrgica da varicocele pode melhorar significativamente os parâmetros do espermograma. Os estudos mostram melhora da concentração, da motilidade e, em muitos casos, também da morfologia dos espermatozoides. De forma geral:
- aproximadamente 60 a 80% dos homens apresentam melhora dos parâmetros seminais após a cirurgia;
- as taxas de gravidez espontânea variam entre 26 e 40%, dependendo das características do casal e do tempo de acompanhamento.
É importante lembrar que esses números representam médias encontradas em estudos científicos. Cada casal possui uma história diferente. Idade da parceira, reserva ovariana, tempo de infertilidade e outras alterações reprodutivas influenciam diretamente as chances de sucesso.
Existe relação entre varicocele e oligoastenoespermia?
Sim! Essa é uma das associações mais frequentes observadas na infertilidade masculina. Ao comprometer a produção dos espermatozoides, a varicocele pode provocar redução da concentração e da motilidade espermática, um quadro conhecido como oligoastenoespermia.
Se você recebeu esse diagnóstico no espermograma, vale a pena entender melhor o assunto. Leia também nosso artigo “Oligoastenoespermia: o que é, causas, diagnóstico e tratamento”, onde explico como interpretar essa alteração, quais exames podem ser necessários e quais tratamentos são indicados de acordo com as diretrizes internacionais.
Esse tipo de avaliação integrada é importante porque nem toda oligoastenoespermia é causada por varicocele, assim como nem toda varicocele provoca oligoastenoespermia. O objetivo da consulta é justamente identificar a causa predominante em cada paciente.
Como é a cirurgia?
Hoje, a técnica considerada padrão-ouro é a varicocelectomia microcirúrgica subinguinal. Com auxílio do microscópio cirúrgico, é possível identificar e ligar as veias doentes, preservando artérias, vasos linfáticos e estruturas importantes do cordão espermático.
Essa técnica apresenta:
- menor risco de recorrência;
- menor risco de hidrocele;
- recuperação mais rápida;
- melhores resultados reprodutivos quando comparada a técnicas convencionais.
Na maioria dos casos, o paciente recebe alta no mesmo dia. As atividades leves costumam ser retomadas após poucos dias, enquanto exercícios físicos intensos e relações sexuais geralmente são liberados entre duas e quatro semanas, conforme orientação médica. Vale lembrar que a melhora do espermograma não acontece imediatamente. Como a produção de espermatozoides leva cerca de 74 dias, os primeiros resultados costumam aparecer entre três e seis meses após a cirurgia.
Conclusão
A varicocele é uma condição comum e, na maioria das vezes, silenciosa. Apesar disso, ela representa a principal causa tratável de infertilidade masculina. Isso não significa que todo homem com varicocele precise operar. A decisão deve levar em consideração o exame físico, os resultados do espermograma, os planos reprodutivos do casal e a avaliação completa de ambos os parceiros. Quando existe indicação adequada, a cirurgia pode melhorar significativamente a qualidade do sêmen e aumentar as chances de gravidez.
Por isso, se você recebeu o diagnóstico de varicocele ou apresentou alterações no espermograma, procure avaliação com um urologista com experiência em andrologia. Descobrir a causa da infertilidade é sempre o primeiro passo para definir o melhor tratamento.
Perguntas frequentes (FAQ)
Varicocele causa infertilidade em todos os homens?
Não. Muitos homens com varicocele têm fertilidade normal. A necessidade de tratamento depende da avaliação clínica e dos exames.
Varicocele sempre causa dor?
Não. A maioria dos pacientes não apresenta sintomas. Quando existe dor, ela costuma ser leve, em peso, e piora ao permanecer muito tempo em pé.
A cirurgia melhora o espermograma?
Em homens com indicação adequada, aproximadamente 60 a 80% apresentam melhora dos parâmetros seminais após a cirurgia.
A cirurgia garante gravidez?
Não. Ela aumenta as chances quando a varicocele é a principal causa da infertilidade, mas o resultado também depende da fertilidade da parceira e de outros fatores do casal.
Posso tratar varicocele apenas com medicamentos?
Até o momento, não existem medicamentos capazes de corrigir a dilatação das veias. Quando há indicação de tratamento, a abordagem efetiva é cirúrgica.
Por que confiar neste artigo?
Este conteúdo foi elaborado pelo Dr. Gustavo Inácio, urologista com atuação em andrologia e infertilidade masculina, com base nas recomendações da European Association of Urology (EAU), da American Urological Association (AUA), da American Society for Reproductive Medicine (ASRM) e nas melhores evidências científicas disponíveis. O objetivo é oferecer informações confiáveis, atualizadas e de fácil compreensão para ajudar homens e casais a tomarem decisões informadas sobre sua saúde reprodutiva.
Referências
- European Association of Urology. EAU Guidelines on Sexual and Reproductive Health. Versão mais recente.
- American Urological Association & American Society for Reproductive Medicine. Diagnosis and Treatment of Infertility in Men Guideline. Versão mais recente.
- American Society for Reproductive Medicine. Committee Opinions on Male Infertility.
- European Society of Human Reproduction and Embryology. Guideline on Male Infertility.
- Organização Mundial da Saúde. WHO Laboratory Manual for the Examination and Processing of Human Semen. 6ª edição.
