1. Introdução
A testosterona é o principal andrógeno masculino, produzida predominantemente pelas células de Leydig nos testículos, sob regulação do eixo hipotálamo-hipófise-gonadal. A terapia de reposição é recomendada exclusivamente em casos de hipogonadismo clínico, definido por:
- Sintomas consistentes (fadiga persistente, redução da libido, perda de massa magra, disfunção erétil);
- Testosterona total reduzida em duas dosagens matinais (geralmente < 300 ng/dL), conforme diretrizes da Endocrine Society (2018).
A utilização de testosterona em homens sem hipogonadismo caracteriza supressão exógena desnecessária com risco de impacto reprodutivo.
2. Mecanismo de Supressão do Eixo HPG
A administração exógena de testosterona provoca um feedback negativo no eixo HPG:
| Estrutura | Função | Efeito da testosterona exógena |
|---|---|---|
| Hipotálamo | Libera GnRH | Reduz liberação de GnRH |
| Hipófise | Libera LH e FSH | Diminuição da secreção de LH/FSH |
| Testículo | Produz testosterona e espermatozoides | Redução da produção testicular e da espermatogênese |
Consequências fisiológicas:
- Queda da testosterona intratesticular (essencial para espermatogênese);
- Atrofia testicular;
- Redução ou ausência de espermatozoides (oligozoospermia ou azoospermia).
Esse fenômeno é bem documentado na literatura em Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism (Tremblay & Dobs, 2012).
3. Impacto na Fertilidade Masculina
A espermatogênese depende de níveis elevados de testosterona intratesicular, que podem ser 100 vezes maiores do que os níveis circulantes.Quando a testosterona exógena suprime LH → reduz-se a produção intratesticular → espermatogênese é interrompida.
Em estudos clínicos:
- Homens saudáveis que utilizaram testosterona exógena apresentaram redução significativa da contagem espermática em 3 a 6 meses;
- A recuperação da fertilidade pode levar 6 a 24 meses após suspensão;
- Em alguns casos, a recuperação não ocorre espontaneamente, exigindo estimulação com hCG ou agonistas de GnRH.
📌 Ou seja, um homem fértil pode se tornar infértil temporária ou prolongadamente após TRT inadequada.
4. População em Maior Risco
- Homens jovens (18–40 anos) que ainda pretendem ter filhos;
- Usuários de TRT estética, sem diagnóstico clínico de hipogonadismo;
- Usuários concomitantes de:
- Esteroides anabolizantes;
- SARMs;
- Pró-hormonais;
- “Ciclos” orientados sem supervisão médica.
A literatura atual aponta aumento progressivo de casos de azoospermia induzida por anabolizantes em ambulatórios de andrologia (Coviello et al., 2020).
5. Quando a TRT é Indicada
Critérios baseados em guidelines internacionais:
| Deve haver: | Fonte |
|---|---|
| Sintomas clínicos persistentes | Endocrine Society, 2018 |
| Testosterona total baixa em 2 exames matinais | EAU Guidelines, 2024 |
| Avaliação de prolactina, SHBG, LH e FSH antes do início | AUA, 2020 |
| Planejamento reprodutivo discutido previamente | WHO, 2021 |
📌 Em homens que desejam manter fertilidade, TRT não é primeira escolha → considerar moduladores do eixo (ex.: clomifeno, hCG) conforme avaliação médica.
6. Conclusão
O uso indiscriminado de testosterona, especialmente em homens com função gonadal normal, representa um risco real e evitável para a fertilidade masculina.
A TRT é segura e eficaz quando utilizada com indicação adequada, diagnóstico confirmado e monitorização contínua.
A decisão terapêutica deve sempre considerar:
- Plano reprodutivo;
- Perfil clínico e metabólico;
- Impacto no eixo hormonal;
- Rastreio de fatores modificáveis de estilo de vida.
Referências Essenciais
- Bhasin et al. Endocrine Society Clinical Practice Guideline, 2018.
- American Urological Association (AUA). Guideline on Testosterone Deficiency, 2020.
- European Association of Urology (EAU). Male Sexual & Reproductive Health Guidelines, 2024.
- Coviello AD et al. J Clin Endocrinol Metab, 2020.
- Tremblay MS & Dobs AS. JCEM, 2012.
